Quem lidera a tecnologia discute por que razão as organizações devem assegurar um futuro mais verde

James Milligan, Global Head of Hays Technology

Quando falamos sobre a crise climática, não estamos a falar de eventos que acontecerão daqui a vários anos — falamos sobre o presente. É responsabilidade das organizações garantirem um presente e um futuro mais verdes e, embora muitos líderes se preocupem com os desafios de tal transformação, há bastantes benefícios em agir.

Para explorar os possíveis resultados com mais pormenor, quem globalmente lidera as empresas de tecnologia partilhou as suas experiências e as suas histórias sobre trabalhar para um mundo mais verde.

Por que razão ser verde é agora essencial para as organizações

No Reino Unido, a N2S trabalha para reciclar e reutilizar equipamento tecnológico com vista a reduzir o ónus sobre os recursos naturais da Terra. Nos últimos anos, o Executive Chairman da N2S, Andy Gomarsall MBE, verificou um aumento do interesse no trabalho da N2S, assim, acredita que a reputação das organizações sairão prejudicadas se não forem sérias em relação ao clima. Ele explica: «A origem dos materiais é, agora, o cerne de todas as discussões, e assim deve ser. Ninguém irá querer trabalhar com empresas que não sejam assim. Acho que o ponto que realmente importa é se a sua empresa não levar isto a sério, o preço das suas ações vai descer. Não vai conseguir encontrar quem trabalhe consigo e vai, simplesmente, deixar de existir.»

Na Modern Water, uma empresa de serviços e tecnologias de monitorização da poluição da água, Linian Li é a GM da região da Grande China. Li concorda com Gomarsall e acredita que não são só as opiniões do pessoal e dos parceiros que interessarão: «A alteração da imagem empresarial tornou-se um fator importante para abrir as vendas e os produtos amigos do ambiente são mais favorecidos pelos consumidores.

A reciclagem de recursos também reduz bastante os custos de produção de uma empresa... No passado, as organizações acreditavam que investir em custos ambientais era um fator que afetava os lucros empresariais.»

A ESUS Mobility foi uma das start-ups reconhecida nas categorias CleanTech e Industry Challenge, na competição Super Connect for Good, em 2021. Operando em Valência, Espanha, a empresa produz scooters elétricas, veículos para entregas, viagens Last-Mile, entre outros. Portanto, é vital promover estes produtos como a alternativa mais viável. William Venturim, CEO, sumariza o desafio: «Como vamos convencer estas empresas, que trabalham com veículos que, às vezes, têm 10-20 anos, a mudar para os nossos? De que agora há uma maneira melhor, mais ideal, com menos custos, que pode ser mais amiga do ambiente.»

Para Venturim, a solução é simples: «Conseguindo-se provar que a sustentabilidade compensa em matéria de investimento, todos se tornarão mais amigos do ambiente!»

A iChoosr começou há 14 anos nos Países Baixos e na Bélgica e, atualmente, opera no Reino Unido, nos Estados Unidos e no Japão. Organiza compras em grupos de tecnologias sustentáveis, como painéis solares, assegurando que centenas de milhar de pessoas podem aceder a equipamentos destes de forma fácil e mais barata.

Isto significa não estar apenas conectado com os consumidores de forma individual, mas também com as comunidades. Irsan Widarto, o CTO da empresa, explica: «No nosso caso, temos partes interessadas que são líderes de mercado, como por exemplo a Greater London Authority no Reino Unido ou a Homeowners Association nos Países Baixos. Eles são nossos parceiros, porque nós temos um historial de sustentabilidade. Não podemos só fingir que somos verdes, fazer «greenwashing», porque, se o fizéssemos, perderíamos a confiança das ONG e até dos governos. Isso seria um problema tão grande como o de perder clientes.»

Greenwashing

Falando com quem lidera a tecnologia, torna-se claro que se preocupam com o greenwashing. O termo refere-se a práticas enganosas que conduzam consumidores e parceiros a acreditar que uma empresa se dedica a ser amiga do ambiente. 

Gomarsall também tem uma opinião forte sobre este tema: «Tenho sempre um sorriso amarelo quando vejo certas empresas a falarem e a publicitarem quão verdes são. É a sensibilidade do marketing, não é? Que nunca se deixe a verdade ser obstáculo de uma boa história!
No setor tech, há uma prática que chamo de "ser surdo, cego e mudo" — e isso é a felicidade da pura ignorância. É: "Não quero ouvir o que dizes, Andy, porque eu sei que é mau e não quero que me estragues tudo".»

Estando a trabalhar na iChoosr há cinco anos, o conselho do Widarto é claro: «Não pratiquem greenwashing. Tornem claro que ainda não conseguiram ser verdes, "ainda não chegámos lá" — e pronto. Acho que isso é muito melhor do que não contar o que se passa ou contar algo que seja mentira.

Há muitas empresas que se debatem com esta questão, porque não têm ainda uma história boa para contar e, então, começam a inventar. Tenho dois filhos, de 22 e 19 anos — eles percebem logo tudo. Não acreditam naquilo. Eu posso cair no engodo, mas eles não. É a geração que mais vai sofrer com o que nós e os nossos antecessores fizermos. Às vezes fechamos os olhos à questão, mas a geração mais nova não faz isso.»

Razão pela qual a sustentabilidade interessa aos colaboradores — e que benefícios traz

Para Widarto, é óbvio que as organizações têm de promover as suas credenciais verdes na contratação de pessoas novas, particularmente a quem começa a trabalhar numa idade jovem. Ele explica: «Está a ocorrer uma mudança. Vejo-o especialmente nas gerações mais novas que acham que o trabalho tem de se enquadrar nas suas vidas e nos seus objetivos de vida. No meu caso, por exemplo, ao contratar um developer, posso dizer-lhes que trabalharão 40 horas por semana e que lhes pagarei bem — mas isso não é suficiente. Podem ter um trabalho desses em qualquer lado.

Muitas pessoas que trabalham para a iChoosr têm paixão pela sustentabilidade. Sabendo quão competitivo é o mercado de IT em toda a Europa, é-me difícil arranjar developers. O extra que nós oferecemos, quando somos bem-sucedidos, é o facto de estarmos a ajudar os consumidores a serem mais sustentáveis e que isso, em última análise, torna o mundo um sítio melhor.»

Não se trata de mera especulação. Widarto salienta a relação da iChoosr com a University of Applied Sciences and Arts de Antuérpia, de onde estudantes o contactam regularmente, pedindo para fazerem estágios ou formações, por causa dos valores da empresa. Ele aceita sempre, pelo menos, duas pessoas daquela universidade por ano.

Gomarsall desenvolve este tema, fazendo um aviso às organizações que não priorizem a sustentabilidade: «A próxima geração está a crescer numa revolução verde. Nos programas curriculares, há um contexto de mudanças climáticas. São eles que, ao se sentarem à sua frente na sua organização, lhe vão perguntar sem rodeios: "Quais são os seus objetivos de sustentabilidade? Quais são os seus targets? Por que razão deverei juntar-me à sua empresa e o que está a fazer para salvar o nosso planeta?"

Contratar uma força de trabalho tão entusiasta compensa. Li dá um exemplo da sua organização, em que uma pessoa que lá trabalha propôs uma parceria que beneficiava todos: «A Modern Water China tornou a sustentabilidade um dos indicadores na avaliação do pessoal para quando se dão ideias boas, que beneficiem o público, sobre atividades de proteção ambiental e os mais jovens estão mesmo a prestar atenção. Há poucos anos, Jie Li, o nosso application engineer, apresentou-nos a MyH2O, uma ONG chinesa, dedicada a melhorar a qualidade da água potável nas regiões rurais da China. Ele tinha sido voluntário nesta ONG quando era estudante universitário.»

Enfrentar a crise climática

Li avisa que as organizações não devem procurar soluções rápidas quando se trata da crise climática: «Líderes têm de ter uma visão com valores claramente identificáveis, incutindo com sucesso uma estratégia empresarial de práticas sustentáveis em todas as suas operações, para transformarem a organização e conduzi-la a um futuro sustentável.»

É também importante lembrar que ter paixão por algo não é diretamente proporcional ao conhecimento que se tem, mesmo quando se está motivado para assumir a responsabilidade. Como pode alguém que lidera obter conhecimento e, assim, encorajar a sua força de trabalho a fazer o mesmo?

Gomarsall dá um insight com a sua própria história: «Temos tanta sorte com esta geração que pode simplesmente ir à Internet e aprender. Passo a maior parte do tempo no LinkedIn a passar informação, a educar e a partilhar algumas das histórias que me chocaram. Em primeiro lugar: aprendam e compreendam. Não significa que seja necessário ser perito, mas sim conhecer e compreender.»

É um pequeno passo, mas pode conduzir a um futuro muito melhor.
Leia o meu blog anterior sobre sustentabilidade em tech, com citações de alguns dos líderes acima, aqui.
 
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